20 jul 2015

Na cadência bonita do samba

Maria Rita mostrou que o ritmo “é corpo, é alma, é religião”

De onde vem o samba? Da mesma casa onde nasceu o riso, o batuque, o ritmo, onde os pés se cansaram da estática… Filho bastardo do Brasil, malvisto na época de seu nascimento na Bahia do século XIX, veio a se consolidar no Rio de Janeiro na década de 20. Em meados dos anos 1940, passa a ser considerado símbolo nacional. Nada mais coerente, pois essa música alegre sintoniza perfeitamente com um povo que sente todas as dores de sorriso na cara. Como um vírus benéfico e multicor, quando toca contagia a todos com o fervor dos batuques.

Maria Rita trouxe para a segunda noite de festa do Inverno Cultural essa epidemia alegre do samba. O público nem percebeu que se espremia – o espaço da Av. Tancredo Neves não foi suficiente para a multidão –, não havia desconforto nos rostos: a atenção estava voltada para a maestria da charmosa cantora e seu vestido brilhante. De onde vem o samba? Talvez da vontade muito humana de acreditar que acima das durezas cotidianas há sempre uma razão para festejar. Um filho bom, a saúde intacta, uma amizade sincera, um emprego legal, ou apenas o privilégio sutil de contemplar um belo pôr-do-sol.

Assim, o show da cantora no domingo, 19, passou poderosamente por qualquer problema, trazendo à tona o que havia de melhor para as pessoas – até o observador mais desatento pôde notar os sorrisos em todos os rostos. Filha de rainha é princesa, e foi com grande majestade que Maria Rita conduziu o espetáculo. Dona de um quadril bem brasileiro, requebrou todas as notas. Abria os braços e se curvava para o povo, como quem pede a bênção e abençoa. Pela segunda vez no Inverno Cultural, agradeceu a confiança do convite e elogiou a pertinência do tema do evento que trata do nosso bem mais precioso: a água.

E de onde vem Maria Rita? Ganhou o Prêmio APCA em 2002 como Revelação do Ano, antes mesmo de ter lançado um CD. Ao lançar seu primeiro álbum, Maria Rita, em setembro de 2003, vendeu mais de 1 milhão de cópias em todo o mundo. De lá para cá, o sucesso foi certeiro: com álbuns lançados em mais de 30 países, é dona de inúmeras premiações, entre elas vários Grammys. Coração a Batucar, seu sexto álbum, apresentado em São João del-Rei na noite de ontem, foi agraciado com o Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba de 2014, e também com um Disco de Ouro. Maria parece que veio do samba.

O que me encanta nela é o carisma e a voz, e como artista é completa: canta, dança, conversa com o público e acho que isso é fundamental para qualquer artista.” Palavras da estudante de Farmácia, Izamara Oliveira, sobre a cantora. Ela, que conheceu Maria Rita pela internet e veio de Lavras apenas para ver sua ídola, explica que nunca havia estado num show. Izamara veio, pois, de onde o samba vem, ele passa também chamando o povo para aplaudi-lo. E que vida bonita ganhou o samba, que parecia deslizar pela voz de Maria Rita e acariciar alegremente o público!

O vírus sambístico invadiu tão grandiosamente a plateia que, ao se despedir, o povo implorou em música: “não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar!”, e a cantora não deixou. Voltou, interpretou lindamente a música, teve mais dança, mais canto, e mais alegria. Quando finalmente acabou, os corações realmente continuaram a batucar. Em mim, ficou a boa certeza de que a beleza daquele espetáculo vai ficar gravado na alma das pessoas, e pelo menos por uma semana deve ritmar algumas vidas. “Achei o máximo, excedeu minhas expectativas”, completou uma encantada Izamara sobre o show.

De onde vem o samba? De tanto lugar, da inquietude de tanta gente! De onde vem fica difícil saber, mas estacionou em São João del-Rei e abalou a estrutura dourada dos vários sinos da cidade.

Texto: Sarah Rodrigues.

Foto: Alisson Macedo.

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