03 ago 2016

O desaguar

Água: Liquidez, superfície, essência. O dicionário não é preciso, assim como quando quer definir na totalidade do que é feito o ser. Mas tenta as origens: sendo água essência primordial de nós, nem a mais vã filosofia ousa discordar: somos bichos sedentos de corpo e alma, conexão imediata: o físico pede beber, a mente pede mergulhar.

Durante nove dias, uma correnteza, nidora e cheia de cor, arrastou quem quer que passasse por São João del-Rei. Nada discreta, ela se fez ouvir, o chuá gingou do samba ao rap, sacolejou os córregos do sagrado, fazendo imergir um homem louco a la Ossanha. Apresentou-se como José Carlos, nome trivial que em nada combinava com a estética clown descaração, que não a toa atende por Zéu, esse sim, a perfeita nomeação daquela figura onomatopaica que gargalha a cada fim de frase, para voltar à posição de ninar o violão com os olhos embebidos na melhor poesia dos gregos e dos baianos. Como se adivinhasse o quanto o humor me desarma, Zéu sorria freneticamente e contava causos, despertando a boa sensação de estarmos no quintal de casa, a simplicidade da prosa me fazendo esquecer que estava frente a um artista completo. O novíssimo baiano atua, canta, compõe, roteiriza e não teme o público-multidão: assim que subiu ao palco, despejou uma imensidão de barbáries sinceras que espantaram e comoveram. A tempestade que vem de Zéu. Tive certeza que a nenhum outro caberia a braçada final do festival até sua foz. Zéu é um oceano inteiro cabido em um mesmo fluxo.

O 28º Inverno Cultural UFSJ fluiu, cruzou as esquinas são-joanenses e, dessa vez, os sinos e casarões foram os coadjuvantes em meio à torrente de manifestações de tudo quanto é tipo, que fez migrar gente de todo canto. Juntos contribuímos, cada qual em sua seara, fomos sais, abrimos comportas e miscigenamos nossa cultura, que se pintou, dançou, moldou-se e se performou.

Saciados, desembocamos no mar de edições que entram para a História, já sedentos pela próxima chuva de atrações, tão gostosa quanto foi essa 28ª. As águas de julho fecharam o Inverno deixarando uma promessa de vida nos nossos corações.

Texto: Mayara Mateus.

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