14 jul 2017

Ocupe arte: um Inverno que grita aos quatro cantos

 

Marina Paula mora no bairro Senhor dos Montes, em São João del-Rei. Quando trabalhou no centro da cidade, conseguiu notar a discrepância entre quem servia nos badalados barzinhos centrais e quem era servido. Em suas palavras, a maioria dos empregados eram “negros pobres e periféricos, enquanto os clientes, os mais brancos e ricos”. Por essa e por muitas outras, Marina tornou-se Mari P., rapper negra, feminista, militante, que expressa por meio de sua voz, as vozes de outras tantas pessoas que se sentem sufocadas dentro da própria pele.

“Vários hinos, violinos, Igreja do São Francisco. E se silenciam os gritos, o gemido do povo oprimido. Sou do Senhor dos Montes, que se ouve as vozes até mesmo de longe. Dessa comunidade que cria laços, percorre pontes”, ela fala em um de seus versos. Mari é apenas uma entre as pessoas que anseiam romper o casulo que separa uma cidade antiquíssima em diferentes mundos que se acreditam excludentes. A mesma tradição tricentenária de São João, que se faz importante por manter laços e perpetuar histórias, por vezes não sabe como abrir-se ao novo e moldar-se às novas realidades que integram a cidade.

Como explicar para as senhorinhas das mil novenas a todos os santos que uma Universidade Federal está na cidade, produzindo estudos, contextos, conhecimentos? Como tornar claro para os universitários que, mais que o local onde cursam sua graduação, a cidade é um organismo vivo feito por um tecido de histórias ao qual eles também estão integrados? Será possível mostrar a esses lados que há também um movimento urbano, feito de Mari e vários outros rappers, dançarinos de break, artistas de rua, uma série de vozes artísticas que dizem muito sobre São João? Como aproximar o bairro erguido no alto do morro e o Teatro Municipal, mostrando que as rodas de hip hop na praça do fim de semana são irmãs das apresentações que acontecem no palco de madeira?

A todos esses pontos de interrogação o Inverno Cultural UFSJ pode ser o início de uma resposta. Com o tema Ocupe Arte, o festival propõe-se a ser o megafone que ilustra sua identidade visual e grita aos quatro cantos de São João del-Rei que a cultura é para todos e vem de todos – não só de determinados nichos –, e que em todas as suas formas de expressão é igualmente importante por carregar os anseios legítimos de diferentes vozes e povos. Além disso, o evento carrega também a certeza de que a maneira mais efetiva de compreender o universo do outro é deixar-se tocar pela sua cultura, envolver-se por seus artesanatos, movimentos, sons, palavras e pinceladas.

Eu ando muito por essa cidade, e a observo da janela do ônibus. Vejo a senhora que entra cheia de sacolas e blusa de Nossa Senhora do Carmo. O menininho que passa de pé sujo chutando a bola. O moço que trança fios e faz pulseiras de pedra no calçadão, a viva cor dos muros grafitados. O pássaro que foge para o céu porque bate o sino. A porta aberta para o mundo do Solar da Baronesa. E carrego dentro de mim uma recontagem de todas essas histórias, acrescida pelo meu olhar, que veio de longe daqui.

Espero que na celebração das culturas da cidade promovida por essa edição do Inverno todos esses poemas cotidianos se organizem numa narrativa única, que caminha rumo à emancipação cultural de São João del-Rei. Que a mistura das cores dos diferentes universos possa conceder à cidade uma coloração mais justa, integrada e vibrante.

Texto: Sarah Rodrigues

Foto: Victor Hugo

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