12 jul 2017

Ritmo e resistência de Berimbrown

 

“Sacode a cabeleira e deixa a juba balançar e não alisa não, o bonito é o sarará! A beleza que tá junto da pele pra acompanhar.” Esse é o refrão de uma das principais faixas do novo álbum da banda Berimbrown, Lamparina, lançado em 2016, traduzindo o conceito de representatividade e resistência negra que permeia toda a arte do grupo.

Essa história começou em 1991. Após voltar de uma viagem, o capoeirista Ramon – conhecido como Mestre Negoativo – encontrou seu bairro em vias de ser tomado pelo tráfico de drogas e demais efeitos nocivos da globalização. Para tentar mudar essa realidade, criou um projeto social na comunidade do bairro Maria Goretti, em Belo Horizonte, para ensinar capoeira e percussão, discutir o protagonismo juvenil, cidadania e conscientizar sobre as diversas etnias que constituem o Brasil.

A partir desse projeto, foi criado o Berimbrown, em 1997. “Surge de uma rebeldia de cidadãos por meio da arte e da música”, conta Mestre Negoativo. A banda completa 20 anos de existência em 2017. O grupo encontrou resistência na mídia tradicional, por abordar temas como o racismo e machismo. “Mas a gente tem muito claro que temos uma missão e não precisamos nos submeter na música. Não nos entendemos como um produto de massa, mas como um produto de reflexão que busca deixar algo de construtivo”, completa.

Nesse sentido, Negoativo conta que já receberam relatos de homens e mulheres que “se descobriram negros” a partir das músicas do grupo. “Isso é muito gratificante para a gente”, relata.

Durante esses 20 anos, a banda já gravou com grandes nomes da música nacional e internacional, como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Elza Soares, Luiz Melodia, Sandra de Sá e Jair Rodrigues e realizou turnês pela Europa e Estados Unidos. Além disso, despertaram interesse de grupos de pesquisa e projetos sociais pelo Brasil afora.

Atualmente, está em turnê com seu novo álbum, Lamparina. Lançado em 2016, traz o conceito de ligar o passado de cultura e crendices do povo banto em MG com a modernidade. Em algumas das faixas, traz vinhetas com falas e depoimentos de moradores quilombolas, mestres e mestras para trazer suas vivências à arte desenvolvida.

“Sobrevivo neste mundo maquiado de fábulas. Até que ponto as fadas são do bem?” (Faixa 2 – Globalização)

O álbum convida a pensar os efeitos nocivos da globalização de acordo com a óptica de Milton Santos. “A globalização entra como uma fábula, mas é perversa”, argumenta Negoativo. De acordo com ele, essa perversidade pode ser percebida principalmente pela influência do funk em comunidades quilombolas.

O ritmo está diretamente atrelado à desvalorização da tradição pelos jovens dessas comunidades. “Na universidade é trabalhado como desconstrução, mas as pessoas têm acesso a outros ritmos musicais. O funk é diferente na comunidade quilombola, porque ele é o único gênero que chega a esses lugares e massacra a cultura local”, opina.

Para fazer pensar essa e outras questões num ritmo dançante que mistura James Brown, Hip-Hop, capoeira, vissungos e os tambores de Minas o grupo Berimbrown se apresenta no último dia do Inverno Cultural, 30 de julho, às 21h30, no Palco do Inverno, Praça do Matosinhos.

Texto: Rebeca de Oliveira

Foto: Divulgação Berimbrown

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