16 jul 2017

Um pintor da voz latino-americana

 

Do lugar onde nasceu, cidade de Medellín, Colômbia, Julio Cesar Aristizabal pensou o universo latino-americano em toda a sua diversidade e quis transformá-lo em desenho. Desde criança, fascinado pela pintura, o jovem travesso pichava os muros da escola e, com o passar do tempo, foi se inspirando em seguir os passos da arte.

Hoje estudante de Artes Aplicadas na Universidade Federal de São João del-Rei, Julio Cesar foi atraído ao Brasil por amor à capoeira. Apesar de pouco mais de quatro anos morando no país, ainda carrega o sotaque espanhol. Nos primeiros passos da academia, passou pelo curso de graduação em Design Gráfico, em sua cidade natal. Todavia, considerou a área limitada, na medida em que segue uma perspectiva mercadológica, bem diferente da qual formou seu ideológico.

Grande admirador de Eduardo Galeano, escritor uruguaio que inspirou intelectuais progressistas e anti-imperialistas na América Latina, o pintor colombiano tem o intuito de reforçar a identidade dos minorizados da periferia do capitalismo.

“O mundo é isso. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo”, dizia Galeano em seus versos. O nosso hermano Julio é uma dessas fogueiras revolucionárias.

Antes de pousar no Brasil, passou pela Faculdade de Bellas Artes de Medellín e participou de diferentes cursos de formação em artes. Conheceu o muralismo mexicano e se tornou um admirador da revolução desse país, inspirando-se em figuras como David Siqueiros, artista plástico e ativista político que retrata em suas obras um pedaço importante da história do México, e Diego Rivera, artista muralista que criticava a pintura de cavalete, defendendo que as obras não deveriam estar confinadas em acervos pessoais ou de público seletivo.

Além de excelente desenhista e artista plástico, Julio também se destaca na pintura mural de rua, tendo executado obras referências em Bogotá, Medellín e no Brasil – já expôs no Palácio das Artes e Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte.

Grande painel

No Inverno Cultural, fará a pintura de um grande painel intitulado Nativa Guarani, que tem o intuito de trazer ao centro a reflexão sobre a resistência indígena e exaltar os que antecederam o “descobrimento” da América. Com isso, coloca em foco a chama da estudante de Direito, ativista e defensora dos direitos e das terras indígenas, a Guarani-Kaiowá, Narúbia Werreira, figura que acendeu o interesse do pintor colombiano na pesquisa dos povos indígenas no Brasil. “Narúbia é uma figura que eu acredito que poderia representar muito bem o que os indígenas tentam nos falar, fazer-nos compreender umas coisas que ainda não compreendemos, falar coisas que ainda não temos percepção e que tem que ser ouvido no mundo inteiro”, ressalta Julio.

A exposição vai ocupar o Centro Cultural UFSJ no dia 23 de julho com as cores da resistência dos povos latino-americanos e, por meio do desenho, deve traçar mais uma faísca para acender a consciência dos presentes em torno dos comumente estigmatizados povos indígenas. Julio Cesar afirma que existe uma problemática latino-americana e até uma dívida com os povos que estavam aqui antes de nós. “Minha ideia com a pintura é falar, nem como colombiano, ou como colombo-brasileiro, mas como latino-americano. Minha proposta é mostrar que a América Latina tem uma identidade própria, em meio de todas essas misturas que temos, mas devemos ir lá atrás, mais ainda. Quero ir às raízes!”

Texto/Foto: Camila Campos

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