25 jul 2015

Um show feito pra sonhar

Com seu jeito de tocar no coração”, Marcelo Jeneci mostrou que “o melhor da vida sempre vem de graça”

O que vale nessa vida tem um pouco desse jeito”. E foi o jeito de Marcelo Jeneci e Laura Lavieri que encerrou a noite de sexta no Inverno Cultural em São João del-Rei. Para o cantor, o festival tem muito a ver com seu último álbum, De Graça, pois muitos só podem curtir a arte se ela realmente passa de graça pela cidade. A energia é outra, democrática, diferente, no pulso, o que acaba por instaurar um fluxo também diferente.

Marcelo conta que quando se começa a trabalhar de fato com o que se gosta, você percebe que é isso que quer fazer para o resto da vida. Por isso sua busca em fazer música que faça sentido na vida das pessoas, sem pudor de mirar no coração. “Esse contato direto tem muito a ver comigo e com muitos compositores que admiro. Nunca sei onde uma música minha vai bater mas, quando eu faço, tenho certeza de que ali não passa nada que não seja verdade.”

O repertório do show foi um passeio por Feito pra Acabar e pelo De Graça. Marcelo considera seu segundo álbum mais autobiográfico. No primeiro, trabalhou com a concepção “ótimas melodias para serem letradas, e algumas para concluir sozinho”. O sucesso Pra Sonhar ilustra bem essa ideia: a única música de sua autoria que entrou no álbum de estreia. Com De Graça, ele encarou o desafio de colocar letra em suas canções, em parceria com sua namorada, Isabel Lenza. “Através do meu verdor, e da maneira dela de ver as dores, a gente foi chegando em letras mais autobiográficas.”

O sangue pernambucano influencia sobremaneira as músicas de Jeneci. Seu primeiro contato com música veio do pai, que consertava instrumentos. Foi o pai quem primeiro percebeu sua memória musical, e incentivou o sonho de ser músico. “Eu amo o estado de Pernambuco, amo ele estar representado em várias áreas como politica, música, cinema e gastronomia. Certamente, a presença da família pernambucana e meu apreço por eles dá um tempero na música que eu faço.”

Quando saiu da periferia, foi o músico Rodrigo Rodrigues, pai de Laura Lavieri, quem o recepcionou. Começaram um projeto juntos, forçosamente interrompido quando seu parceiro e mentor foi diagnosticado com leucemia. Rodrigo faleceu no dia de seu aniversário, um dia antes do de Jeneci. Laura, então, foi a “herança” do cantor: um amigo para a filha e uma filha amiga para o amigo. “Ficou muito claro para mim que o projeto do show tinha que ser retomado com Laura”, lembra. Assim, várias músicas do primeiro disco foram compostas pensando na voz dela.

Laura não mede elogios ao parceiro. Para ela, essa parceria é algo maravilhoso, sempre gratificante, um lembrete do que a vida pode nos trazer de bom. “Em Sete Lagoas, tive a prova da sorte que é trabalharmos juntos. É difícil nomear o que a gente faz um pelo outro, temos uma conexão muito forte”, analisa.

É como está escrito em uma de suas canções: “um de nós vai sentir a falta de um de nós”. Iremos sentir falta de Jeneci, de Laura, do 28º Inverno Cultural… Resta-nos o consolo de que o maior festival extensionista de arte e cultura do país não foi “feito pra acabar.”

Texto: Iara Furtado.

Foto: Anderson Marcenes.

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